
A primeira história envolvendo crianças e consumo que eu tenho lembrança aconteceu no supermercado. Era um belo sábado. Fomos fazer umas comprinhas para levar para um churrasco na casa de praia de algum amigo dos meus pais. No carrinho, lógico, nada além de baganas.
Quando vão às compras, vocês também têm a sensação de que enquanto passeiam pelos corredores, tem sempre alguém perseguindo? Em cada prateleira, quando você menos espera, está lá aquele gordão tirando a tampa do desodorante para cheirar, ou olhando os vinhos que não vai comprar ou abrindo um iogurte para tomar enquanto faz a feira, e você fica pensando: “será que ele vai pagar por isso”?
Naquela época, Natal não tinha grandes supermercados e o meu perseguidor, na ocasião, era uma família tal e qual a minha – não fosse pela criança insuportável que chorava implorando por batata Ruffles. O diabinho chorava tão alto que não dava para ouvir aqueles recados que a moça falava no microfone.
“Adeílson, favor comparecer na (SIC) frente de loja”.
O que aconteceu foi que, coincidentemente ou não, no auge do escândalo que claro, se deu exatamente na seção de biscoitos e batatinhas, meu pai pegou um punhado pacotinhos azuis e colocou no carrinho, bem na frente da peste.
O grito feriu meus tímpanos, lembro até hoje. Durante o resto das compras, este menino alternava entre se jogar no chão, chutar o carrinho e derrubar coisas das prateleiras para fazer com que os pais comprassem o que ele queria. Tenho certeza que hoje ele não é publicitário. Encontramos-nos novamente no caixa.
Eles estavam atrás de nós, e não sei se por estar cansado demais de tanto espernear ou por perceber que já se encontrava na reta final e que não ia ganhar mais a batata da onda, estava quieto, no colo do pai que ficava de costas para nós, o que fazia com que o anjinho que estava com a cabeça apoiada no seu ombro com uma chupeta na boca amarrada por um pano branco de fralda, cabelos pregados na testa de suor e olhos vermelhos de chorar, ficasse de olhando para os Cantídio. Meu pai passava as compras pela esteira quando percebi que seus olhos brilharam, e apesar dos trinta e poucos anos que tinha, resolveu fazer uma traquinagem.
Quando chegou a hora de passar as nossas Ruffles, ele as levantou, mostrou para o menino que já estava tranqüilo e conformado, e balançou os pacotes com um sorriso de “olha o que eu tenho e você não tem”. Nesse momento a criaturinha conseguiu energia do inferno para soltar um grito que fez sua chupeta cair e seu pai se assustar. Ele voltou a chorar – nós pagamos e fomos embora.
Todos os dias 12 de outubro eu penso: se por uma batata frita aquilo tudo aconteceu, o que aquele menino seria capaz de fazer por um brinquedo? Esta é uma data inventada comercialmente, então se ele tiver matado alguém, não é ele quem tem que pagar por isso.