Imagine a cena: uma mesa de bar, vários amigos conversando, e começa a discussão:

– Eu aposto que foi em 1825 que Napoleão foi exilado!

– Claro que não, bocó, foi em 1810, não viaja!

– Cara, eu tenho certeza que foi em 25, em 10 ele ainda tava no ápice.

– Ih, nenhum dos dois tá certo, sente só o que tem na Wikipédia: “Napoleão foi preso e então
exilado pelos britânicos na ilha de Santa Helena em 15 de outubro de 1815”.

– Pô, viajei.

– Ah, mas eu tava mais certo, 1810 era ápice!

Se a cena não lhe pareceu familiar, vamos tentar outra:

– Cara, eu tenho certeza que você tem que virar para a direita depois do segundo semáforo,
andar por cinco quarteirões e pegar a segunda entrada da rotatória.

– Não, mano, era ESQUERDA depois do semáforo! Eu lembro bem do que o cara falou.

– Você nem tava prestando atenção, era direita, não esquerda… vem na minha.

– Vocês dois tão errados, o cara falou esquerda mesmo, mas na verdade tem que ir reto –
coloquei no Maps aqui, olha.

Pronto, se você não conviveu com algo semelhante a um desses dois exemplo, você vive na
década passada.

A Internet nunca esteve tão disseminada, tão acessível, e nossa capacidade de aprendizado
nunca esteve tão ameaçada. Hoje, qualquer um tem um celular no bolso, conectado, que
permite acesso a uma (quase) infinidade de informações em instantes. Para ver as últimas
notícias, consultar mapas, ou ler um dos 19 milhões de artigos da Wikipédia, basta alguns
segundos – a facilidade desse momento era impensável para a geração anterior.

E se a informação está tão facilmente acessível, porque devemos nos preocupar, e não
comemorar?

Na primeira aula, do primeiro dia do meu curso de jornalismo, uma professora disse: ‘o homem
aprendeu a escrever para poder esquecer’. Pense sobre essa frase – ela explica o que somos
hoje, intelectual e socialmente.

Antes da escrita, o homem vivia com base no que ouvia e aprendia através do convívio
com outros homens. O aprendizado era limitado à nossa memória, e à memória de nossos
ensinadores. Se algo aprendido fosse esquecido, se não houve registros de uma nova
descoberta, ela simplesmente não existiu – por não poder ser transmitida. É por isso que
usamos o prefixo pré, em pré-História. Pois, não havendo escrita, não houve conhecimento
acumulado daquele período. E não havendo conhecimento acumulado, não houve história.

Agora traga essa lógica para o momento atual: ao contrário daquela pré-História, em que não havia registro do conhecimento acumulado, hoje há séculos de estudos, pesquisas, artigos,
academia, ciência. Ou seja: conhecimento nas mais diversas formas, acessível gratuitamente
no nosso bolso, ou na mesa do nosso escritório. Usando a lógica de “escrever para poder
esquecer”, nos é permitido esquecer muito, com o acesso tão fácil.

Na década de 60, muito tempo antes da web como é hoje, um estudioso canadense chamado
Marshall McLuhan escreveu um livro chamado “Os meios de comunicação como extensões
do homem”. Em um dos capítulos, McLuhan explica que, quando passamos a interagir com
uma nova tecnologia frequentemente, ela passa a se tornar uma extensão (e, portanto, uma
amputação) de nosso corpo. Como consequência, nós, como indivíduos, somos modificados
por essa extensão – todo nosso corpo se adapta àquela nova parte de nós.

Repito: ele escreveu isso na década de 60 – quando não havia computadores pessoais,
notebooks, smartphones ou nenhum gadget dos quais dependemos hoje, 50 anos depois.
Gênio ou profeta, não importa, McLuhan descreveu com exatidão o que é nossa vida hoje.

Há algumas semanas, meu iPhone teve um problema no microfone e levei para consertar. “Vai levar só uma meia hora, você pode esperar aqui” – foi o que fiz. Enquanto estava sentado esperando, coloquei a mão no bolso no mínimo cinco vezes, buscando pelo meu celular, para ajudar a passar o tédio. Sim, eu estava procurando pelo iPhone, pelo qual eu estava esperando o conserto. O quão estúpido eu parecia? Confesso que me senti um idiota no momento, mas depois pensei no que aquilo significava. Meu iPhone já se tornou, há um bom tempo, parte de mim; e meu corpo, já adaptado a essa extensão, buscava naturalmente pelo celular sem sequer eu pensar antes de agir.

Em um primeiro momento, a facilidade do acesso à informação parece algo perfeito,
democrático, saudável. Mas pensando dessa forma, sobre a ótica da extensão do nosso corpo e da permissão do esquecimento, sua perfeição passa a ser questionável.

Coloque o homem pré-histórico e o homem atual em meio a uma floresta, sem acesso a nada, e veja quem sobrevive mais. O homem moderno cresceu com o corpo estendido: a roda é a extensão dos pés, as ferramentas, as extensões das mãos, os remédios, serviram como extensão das funções que deveriam ser executadas pelos nossos corpos. Quando separados de tudo isso, somos duramente amputados, e não sabemos como reagir. O homem pré-histórico, por outro lado, nunca conviveu com essas facilidades, e sobreviveria por muito mais tempo que o amputado contemporâneo.

Agora pense assim: colocando a nossa geração, que cresceu com a Internet, e a geração
anterior para conviver diariamente sem acesso a web, os amputados somos nós. O grande
problema, repare, é que no exemplo anterior, a tecnologia servia como extensões de várias
partes do corpo do homem moderno. Já no nosso caso, a tecnologia serve como extensão,
também, dos nossos cérebros. E permitindo essa extensão, permitimos também a amputação.

E isso é só o começo. Nas próximas décadas acompanharemos, como nunca, a extensão de
nossas funções por avanços tecnológicos: chips implantados, telas micro-finas, acesso sem
necessidade de dispositivos, entre outros, não são mais uma projeção – mas sim uma questão de tempo.

É uma questão de tempo, também, para que confundamos o que é conhecimento e o que
é arquivo, o que é aprendizado e o que é armazenamento, o que são sinapses e o que é
processamento.

E aí eu pergunto: isso é evolução ou retrocesso?

 


 

Artigo escrito por: Gustavo Di Lorenzo

Sobre o autor: Jornalista, do tipo que quer ser escritor. Busca entender um pouco de tudo, e escrever tanto quanto possível.  | No Twitter e no Facebook.

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