Através de uma ação muito simples e usando como mídia aquilo que, nas grandes metrópoles, todos parecemos por demais acostumados a não enxergar, a AlmapBBDO arrumou um jeito muito sutil de, simplesmente, sem grandes delongas, sacudir o conformismo da sociedade ao mesmo tempo em que promove os nobres ideais da Casa Do Zezinho, uma ONG que tem como missão, proporcionar meios alternativos para a educação de crianças e jovens carentes.

Delicado e direto ao ponto, um dos principais efeitos deste play, além de um suspiro e uma breve reflexão, é provocar uma incômoda sensação de que todos nós, diante das prementes necessidades alheias, preferimos nos afastar e calar, criando assim o efeito  “tapa na cara da sociedade“…

Ao meu ver, o filme da ação transmite um “valor” que se contrapõe ao que é, popularmente, conhecido como preconceito. Através de um comportamento automatizado, as pessoas que são abordadas pelos dois jovens atores que interpretam crianças carentes, já sinalizam uma resposta negativa sem nem ao menos prestarem atenção ao ‘drama’ que ali se apresenta.

Uma forma inteligente e criativa que a agência, junto com a Casa Do Zezinho, encontrou para mobilizar e viralizar essa forma escancarada de comportamento que a gente pratica sem, muitas vezes, sequer perceber.

Vivi uma experiência que me proporcionou uma sensação que, talvez, possa ser comparada a 0,001% da sensação do que é existir em uma realidade paralela onde os olhares se tornam cegos ao se depararem com você. Durante a execução de um projeto, em plena Avenida Paulista, eu e uma amiga levamos um cartaz e tínhamos – como simples parte do processo – a missão de fotografar algumas pessoas que ali se encontravam à caminho do trabalho, segurando aquele pedaço de cartolina. Porém, em 99% das tentativas, não tivemos nem a chance de explicar sobre o que se tratava, não porque nos confundissem com pedintes, mas porque todos, de uma forma aparentemente inconsciente, já sabiam que a gente iria tomar seu precioso tempo com algo que, provavelmente, não era do interesse de ninguém. Afinal, quem é que vai para a Paulista pinçar um desconhecido para presenteá-lo com uma nota de R$100,00? A negativa era clara e direta, as pessoas desviavam o olhar e a direção, ignoravam e diziam não ter tempo e/ou dinheiro.

A questão é que aquilo não se tratava de um serviço, não era um produto ou, muito menos, uma tentativa de venda nem nada parecido. Sendo sincero, a questão também não era o que foi ou deixou de ser. Mas ali, naquele breve momento de frustradas tentativas de nos comunicarmos com os outros, configurou-se o óbvio, ou seja, que aquilo era apenas o efeito colateral de um preconceito cultural tão forte que, fim das contas, acho que até eu acabaria me esquivando de alguém que tentasse me abordar na rua.

Em minha humilde opinião, o preconceito é uma forma de defesa que a gente copia ou cria e sustenta para se cegar perante dilemas que percebemos não ter uma solução rápida e/ou imediata. No exemplo da negativa aos pedidos que surpreendem quando as pessoas realmente param para ouvir, a lição fica por conta do previsivelmente triste futuro da maioria das crianças em relação a educação – fator que a gente ignora, esperando apenas resultados imediatistas que não demandem nosso tempo, atenção, “mão no bolso” ou, pior, o ‘arregaçar as mangas’ que nos colocaria na construção e/ou luta por algo melhor.

Mas…. e você? Sempre olha para o seu entorno ou é daqueles que vive escutando sem, no entanto, querer ouvir?

O autor admite que o post foi escrito ao som de “O Rappa – Minha Alma

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