Sobre relacionamento, vidas vividas e vidas postadas

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Já faz um tempo que venho trocando ideias sobre relacionamentos com meus amigos e conhecidos. Faz tempo que tenho conhecido gente que me notificou pela tela, sendo amigo/amiga de alguém – com interesse ou não, ou através de qualquer aplicativo, como Instagram, Tinder e sei lá mais o que. Faz tempo que ando exausto desta intensa superficialidade cheia de maquiagem que, geralmente, só tenta esconderesse nosso desespero de encontrar, como se fosse uma atualização qualquer, alguém para compartilhar algo de forma mais íntima e sincera – sem tantos filtros.

Me vejo sempre colocando o mesmo exemplo, relembrando meus primeiros namoros com ar de nostalgia, onde os problemas que existiam, apesar de banais, eram SEMPRE reais, afinal, faziam parte da rotina do casal, eram autênticos, no geral, envolviam sentimentos e sensações bobas que logo que compartilhadas, já era conversadas e acertadas, mas, hoje em dia, com todas as mil e uma opções e ofertas de novas e infinitas possibilidades, parece que precisamos praticar o desapego e a intensidade que se tornou algo descartável e com prazo, ganhou a validade de ser uma noite, um jantar, alguns dias, semanas e por ai vai, e digo isso se baseando nos meus próprios exemplos, nada de apontar o dedo para os outros.

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Parece que todo mundo procura alguém, quer alguém para – de fato – compartilhar o dia-a-dia fora da rede social, o de verdade, aquele cheio de frustrações, reclamações, cansaço, que tem SIM uma pontinha de fofoca, de medos, receios e, geralmente, é recheado de inseguranças, mas com tantas timelines para preencher e gente para mantermos atualizados sobre nossas incríveis relações e rotinas, parece que nos falta tempo de arriscar, na verdade, de se frustrar – de verdade. Parece que preferimos cultivar a colheita invisível ao invés de focar, lapidar e viver um relacionamento que sim, pode ter problemas e que sim, é real, vai impor e construir novas barreiras, vai frustrar, chatear e dar trabalho físico – não só tecladinhas, por qualquer sensação temporária que a medicina digital consegue nos proporcionar.

Hoje em dia ando com muita preguiça das conexões, não aguento mais a superficialidade do ‘vamos se ver’, acho que tornou-se algo que não consigo mais digerir. Tenho tentado me esforçar para encontrar quem eu quero, ver quem eu desejo, ser sincero com quem preciso e me desfazer de conexões que não são relações. Ando tentando converter todo o espaço entupido de relações em espaços vazios, aberto a relações, que ocupam mais e demandam mais, mas que cresçam, afinal, a conexão é só uma troca, a relação não, é um crescimento.

A internet tem praticamente a função de nos distrair, apesar do cunho informativo, deveríamos admitir que utilizamos como puro entretenimento, achar que aqui se funda e se mantém algo real é pura fantasia. Aqui nos conectamos, nos entretemos enquanto estamos fazendo algo meia boca na vida real, nutrimos conexões apostando para que se tornem relações, OU NÃO, nutrimos apenas pelo vagabundo luxo de se manter ativo, se sentir querido, desejado, disputado ou, pior, melhor que os outros.

Tinder; internet e o paradoxo da cômoda relação de bolso

Fico pensando em quantas mulheres já conheci pelo Tinder, aplicativo que, no início, era cheio de preconceito por todas as pessoas que ridicularizaram a dinâmica; de fato, ali é um açougue humano, mas dali tirei contatos interessantes, aprendi com muitos desesperos que presenciei em precipitados jantares e saídas que fiz, mas também conheci pessoas incríveis e outras nem um pouco incríveis, mas a ideia de que aquilo ali é 100% glacê, assim como os avatares que nutrimos aqui para parecer mais legal para os outros, é pura balela. Ali encontra-se a nossa essência, em desespero, é como se ali traduzisse todo o nosso medo da solidão, onde entre a esquerda e a direita, jogamos nosso futuro relacionamento, se baseando em fantasia, fotos, imagens, descrições editadas e ideias que projetamos para que a gente arrume ou conheça alguém legal, alguém que, no fim das contas, no tire dali, nos faça desativa essa conta maluca no aplicativo e, quem sabe, faça essa vontade doentia de alimentar a internet com uma editada edição sobre nós, diminua…

Todo ser humano tem medo de morrer sozinho, isto é um fato, vivemos numa busca por um outro alguém e por uma aceitação por quem gostamos, porém, com tantas pessoas olhando tudo aquilo que você tecla, digita e posta, será que não estamos buscando um alguém tão plural que, nessa imensa rede de opções, não estamos sabotando a relação pela pura vaidade de cultivar conexões e possibilidades para manter nosso – agora digital – ego sempre massageado? Afinal, são tantas pessoas diferentes nos olhando, observando, dando scroll e nos curtindo que, para agradar todos só existe um jeito: deixar de ser aquilo que somos.

É engraçado admitir e escrever isso, acredito que muitos podem até se identificar, mas nunca iriam admitir, afinal, isso não seria coerente com a timeline bem sucedida de quase nenhuma das redes sociais que estes administram, por isso, é válido registrar: vida vivida não é, geralmente, a vida postada.




  • Aline Carraro

    Relacionar-se dá trabalho, demanda tempo, cultivo… cuidado, empatia, admiração. Tudo isso antes do amor propriamente dito.
    Talvez seja o imediatismo – que a internet e as redes sociais fazem transparecer claramente – o que nos leva a agir assim.
    A ansiedade, o hoje, o agora. A vida é colheita. E colheita é feita mais de semeadura e cultivo do que de seara, propriamente dita! ;-)

  • Tiago

    num futuro não muito distante, chamar uma pessoa pra conversar pessoalmente vai ser coisa de outro mundo…

  • smcc

    menino do céu!! tentei ler, porque parecia interessante, mas precisas diminuir seus períodos. ;)

  • Ronald

    Perfeito! Vejo da mesma forma. Teremos, em breve, que achar uma solução pessoal para este dilema entre o lado fantástico da internet e o outro lado pobre e superficial dela…