Lembro que certa vez, em um evento de cinema, conheci um casal que trabalhava na Argentina, se não me engano. Um trabalhava com a equipe de elétrica e o outro com a equipe de som dos filmes. Eles eram de um país do leste europeu e já tinham enfrentado a sua parcela de tragédias com uma guerra civil.

Durante os dias em que convivemos, junto com outras pessoas durante o festival, eles não comentaram muito sobre o que aconteceu, e nós não perguntamos. Apenas um deles, enquanto estava encostado no balcão do bar, durante uma festa, disse pra mim: “Vocês têm sorte de não terem vivido uma guerra. É algo muito triste, e o país de vocês parece muito feliz, tem muita luz”.

O olhar dele enquanto dizia isso, e depois ao mostrar a cicatriz que ia de uma ponta a outra do seu antebraço, tinha sido a coisa mais crua e chocante que aprendi sobre guerras. Porque é assim: a gente assiste filmes sobre a segunda guerra e acha que tudo é heroísmo e tenta dar um sentido para as coisas. Mas a bem da verdade é que não há. Uma guerra é algo muito triste.

E em 2014, eu aprendi um pouco mais sobre a tristeza de um conflito. Sou um daqueles gamers que “entra no mundinho” e fica imerso. E quando tive a oportunidade jogar This War of Mine, passei a entender melhor aquele olhar que recebi quase 10 anos antes.

Nesse jogo, ao invés de herói da guerra, você é uma pessoa comum que está presa nela

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This War of Mine é um game lançado no final de 2014 oeka 11 bit studios, e é uma mistura de survival com resource management, ou seja: Um dos objetivos é ver quanto tempo você sobrevive no jogo e o outro é saber administrar os recursos que você tem (que são bem escassos).

O jogador controla três personagens que dividem uma casa em ruínas, em uma cidade que está sitiada durante a guerra civil. As personagens precisam explorar locais, construir camas, fogões e outros recursos; também precisam encontrar remédios, defender a sua casa de ladrões e outras coisas que envolvem o horror da guerra.

O que nenhum deles vai fazer é pegar uma arma e salvar o dia, sendo o herói solitário que acabou com a guerra. Assim como é o caso da esmagadora maioria das pessoas que estão presas em um conflito.

Mas esse é um bom jogo, ou apenas educativo?

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É um ótimo jogo, daquele que te prende pelo sistema e marca as tuas lembranças pelos momentos emocionais (claro, para quem se permite imergir no mundo do game). Imagina que é preciso lidar com os aspectos da personagem como é em The Sims: é preciso alimentá-la, e deixa-la descansar. Mas também é preciso cuidar dos recursos que se tem, e sair a noite para caçar mais recursos em locais abandonados. Na maioria das vezes.

O mais famoso problema, que aparece cedo no jogo (é difícil sobreviver por muitos dias) é quando se encontra o casal de idosos. Ao invadir uma casa, você irá dar de cara com dois velhinhos que não têm como se defender, mas tem vários remédios. E nessa altura, esses remédios valem ouro. A questão é que eles valem ouro para os seus donos, também. Então o que você faria? Levaria os remédios para salvar o seu grupo, ou deixaria com os velinhos?

Existem várias discussões sobre isso na internet, e a maioria conta que estava tão imersa no jogo, que nesse momento se sentiu mal por ter que tomar uma decisão, independente de qual fosse.

Como eu disse antes: as mecânicas funcionam, as conexões emocionais também. E isso não é o ideal para um jogo?

Será esse o jogo de guerra mais realista já feito?

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“O padrão é sempre o mesmo. As pessoas lutam por comida, sabão e remédios. Elas trocam bebidas alcóolicas por balas e armas. Foi isso que aconteceu em Sarajevo”. – Disse o game designer Pawel Miechowski em entrevista ao Kotaku.

De certo ponto de vista ele é o jogo sobre guerra mais realista já feito. Não graficamente, mas na sua mecânica. Por mais bem feitos que o Medal of Honor, Battlefield e Call of Duty sejam, eles estão longe de retratar uma guerra de forma efetivamente realista (o seu personagem recupera energia só por ficar parado, por exemplo), e não simulam táticas de combate reais. São narrativas, uma visão romanceada do herói de guerra. Já This War of Mine é cru e não permite erros.

Ele é um jogo difícil, assim como a guerra, e é complicado sobreviver nele por muito tempo. E essas dificuldades não foram feitas aleatoriamente pelos desenvolvedores do jogo, e sim através do relato de pessoas que passaram por dramas reais em guerras reais. Os desafios do game se originaram em artigos escritos por sobreviventes e em entrevistas feitas pela equipe de desenvolvimento. Assim, eles garantiram que a experiência fosse a mais real possível.

Por isso eu recomendo: o jogo é muito bom e tem uma narrativa valiosa que mostra o quanto a guerra é algo triste. Ele pode ser encontrado na Steam. É um game pesado, mas é uma experiência única no entretenimento eletrônico.

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