Na década de 50, Alfred Hitchcock, driblou a crise financeira e de ideias que assolava Hollywood e aderiu a uma nova tendência: a produção de filmes baratos. Pagou uma mixaria pelos direitos do romance de Robert Block, contratou uma equipe de televisão para agilizar o processo de filmagem e reduzir custos, e com apenas 800 mil dólares fez Psicose (Psycho, 1960), o filme mais marcante de sua carreira e seu maior sucesso comercial.

Dono de apuradíssimo tino para os negócios, também usou alguns métodos ousados na época, para promover e ao mesmo tempo proteger sua obra.

Primeiro, o diretor pagou 5 mil dólares pelos direitos do logotipo criado pelo artista Tony Palladino para a capa do livro. Depois, optou em não exibir Psicose para críticos e formadores de opinião – atitude essa que ia contra o que era considerado tradição e privilégio da indústria. Preocupado, Lew Wasserman, presidente da MCA, aconselhou o diretor a fazer o lançamento nacional do filme em milhares de cinemas logo depois da pré-estreia. A ideia era que, se o boca a boca destruísse o filme, pelo menos a reputação do cineasta manteria as pessoas indo ao cinema por uma ou duas semanas.

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Só pra garantir que o “cartaz” fique bem visível…

O que eles não sabiam era que o gorducho tinha em mente um golpe publicitário que se revelaria depois um dos mais bem arquitetados de todos os tempos. Na falta de uma história conhecida, de uma produção grandiosa e de astros que garantissem a bilheteria, Hitchcock explorou seus três bens mais valiosos: o título, o final chocante e sua própria figura, como um mestre de cerimônias de um macabro circo de horrores.

As ameças de morte

Psicose

Aviso colocado nas paredes dos cinemas

Na pré-estreia, em 16 de junho de 1960, em Nova York, o diretor testou a sua campanha publicitária incomum que envolvia a entrada do público no cinema. Se fosse bem-sucedida, seria reproduzida por todo o país. Todo anúncio em jornais e revistas reforçava que “ninguém, absolutamente ninguém, será admitido no cinema depois do início de cada sessão de Psicose”. O diretor não apenas sugeriu, como também exigiu que a proibição fosse um pré-requisito contratual para qualquer cinema que programasse o filme. Para racionalizar ainda mais, Hitchcock e a Paramount enviaram para eles dois manuais de vendas elaborados (e cheios de uma irresistível vigarice). Cada um tinha mais de vinte páginas, e o diretor detalhava pessoalmente o como e o porquê de seus “truques” publicitários.

Ele também distribuiu cartazes de papelão de um metro e meio de altura com a figura de Hitchcock juntamente com mensagens gravadas para o público: “Senhoras e senhores, como vão? Devo me desculpar por incomodá-los. No entanto, essa aglomeração e espera são boas para vocês. Vão fazer com que apreciem as poltronas lá dentro. E vão fazer com que apreciem Psicose. Vejam vocês, este filme é muito melhor se visto pelo começo e prosseguindo dali para o fim. Sei que esse é um conceito revolucionário, mas descobrimos que Psicose é diferente da maioria dos filmes e não deve ser visto depois de começado”.

Os exibidores foram aconselhados a instalarem alto-falantes do lado de fora com a seguinte mensagem: “O gerente deste cinema foi instruído, sob ameaça de morte, a não admitir ninguém após o início do filme. Quaisquer tentativas espúrias de entrar por portas laterais, saídas de incêndio ou dutos de ventilação serão impedidas à força. Disseram-me que esta é a primeira vez que essas medidas excepcionais estão sendo necessárias, mas é a primeira vez que se vê um filme como Psicose”. Claro que era uma brincadeira, e tudo fazia parte do marketing de Psicose.

No final de cada sessão é necessário fechar as cortinas da tela logo após os créditos de encerramento e manter a sala no escuro por meio minuto. para que o filme ficasse indelevelmente gravado na mente do público.

Três trailers para todos dominar conquistar

Um dos recurso mais poderosos de Hitchcock para promover Psicose foi a trinca de trailers. O primeiro reforçava a política de que ninguém seria admitido no cinema após o início do filme, o segundo estimulava a discrição do público.

Por favor, não conte o final do filme. É o único que temos

Porém, o mais inovador era o terceiro: um tour de seis minutos do diretor pela casa e pelo motel dos Bates. Hitchcock não queria que o público visse nenhuma cena antes do lançamento. Então utilizou os serviços de James Allardice que desenvolveu um texto irônico no qual o diretor atua como guia. Note que é Vera Miles quem grita no chuveiro – tudo para proteger a surpresa de que era Janet Leigh quem acabaria em apuros.

O diretor ainda gravou uma dúzia de comerciais para o rádio, um deles dizia: “Não é verdade, como foi dito que Psicose é capaz de apavorar o espectador até ele ficar sem fala. Eu soube que muitos homens mandaram suas esposas ao cinema na esperança de que isso realmente acontecesse.” – Qual seria a reação do público, se esse comentário fosse usado na divulgação de um filme hoje em dia? Qual seria a sua reação?

Claro que Alfred Hitchcock sabia da qualidade técnica do seu filme, e do impacto da sua estratégia de divulgação. O que ele não sabia quando embarcou para Nova York em 16 de junho de 1960, as vésperas da pré-estreia, era que tudo aquilo mudaria sua vida profissional para sempre. O poder de Psicose sobre o público e seu impacto no cinema internacional, foi grande, sobretudo nele.

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