Que a figura de Charlie Chaplin é o ícone máximo do cinema, não existe dúvida. Mas se tivéssemos de representar em uma única cena toda a essência do cinema, acredito que seria a sequência em que Gene Kelly canta e dança na chuva após um encontro bem sucedido. Quem assistiu a esse clássico dos musicais, sabe que Cantando na Chuva (Singin’ in the Rain, 1952) é muito mais do que isso – mas nunca uma única cena representou tão bem o cinema – alias como tudo neste filme é uma homenagem a sua história.

Alguns filmes são muito lembrados por seus ineditismos – uma inovação artística ou a estreia de algum astro; Outros são reverenciados simplesmente por serem os melhores de seu gênero. Cantando na Chuva se enquadra nesta última categoria. Ele não é pioneiro em nenhum sentido, tão pouco representa um grande avanço na linguagem cinematográfica, porém poucos filmes conseguiram englobar de forma tão simples e maravilhosa tudo o que há de bom no cinema: as glórias, os fracassos e a oscilação entre esses dois pólos. É absolutamente apropriado que o maior de todos os musicais seja, em sua essência, sobre o próprio som. Ou pelo menos sobre a chegada dele.

Cinema Mudo x Cinema Falado

chaplinEm 1925, o cinema mudo tinha atingido um nível de altíssima qualidade. O surrealismo alemão, os épicos americanos, os experimentalistas franceses e soviéticos conquistavam a crítica e o público graças ao poder que os grandes realizadores tinham em criarem universos fantásticos.

A montagem era vista como a base da linguagem cinematográfica e era em torno dela em que os filmes eram construídos e aperfeiçoados.  O período experimental de técnicas dos primeiros anos do século, entregue a engenheiros e cientistas tinha dado lugar a uma nova era entregue nas mãos de criativos e artistas. Muitos dos realizadores achavam que agora sim o cinema era digno de ser visto como arte. Mas de repente tudo muda

O desempenho dos atores, marcado sempre por gestos exagerados, é substituído por vozes estridentes, muitas delas sem a mesma intensidade dramática. A solenidade de uma cena desaparece e o choro substitui a imagem da atriz em sofrimento com todo o aparato típico do cinema mudo. Era uma realidade que terminava e outra que dava os primeiros passos. Naturalmente muitos eram contra. Aliás, a maior parte das pessoas via no cinema sonoro uma moda passageira. Mas quando os talkies provaram ser um imenso sucesso a situação mudou.

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Até 1930 foram feitos pouquíssimos filmes falados na Europa. Para alguns realizadores, como o iniciante Alfred Hitchcock, o som deveria surgir mais como um apoio à montagem do que como uma nova linguagem. Os cineastas europeus diziam que o som chegou e deve ser encarado como uma ferramenta útil nas mãos do artista. Nada mais do que isso, não destacando o som acima de todas as coisas. A montagem continua a ser o ponto central de um filme. Não o som!

Na Europa o som tinha chegado em 1928 com exibições em Londres, Paris e Berlim, mas as produções dos primeiros filmes europeus com som só aconteceram no ano seguinte e mesmo assim eram poucos os exemplares. Os estúdios não tinham os equipamentos utilizados na América e por isso a maior parte das produtoras continuou a apostar com sucesso no cinema mudo.

Realidade que só mudou em 1930, transformando por completo o cinema europeu. Apesar dos grandes autores se manterem fiéis ao conceito de cinema mudo, a maioria dos filmes exibidos no velho continente chegavam de Hollywood, com isso, o cinema falado rapidamente conquistou, também, a Europa. A linguagem universal do cinema mudo tinha acabado. O inglês afirmava-se como língua mundial e Hollywood tinha vencido.

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Em Cantando na Chuva, o roteiro de Adolph Green e Betty Comden é ligeiro e engraçado, parodiando a difícil transição do cinema mudo para o falado com a espiritualidade veloz que somente a geração seguinte de roteiristas poderia oferecer. Muitas das canções foram recicladas dos arquivos musicais da MGM, mas Kelly e sua equipe as renovam de tal forma que sempre serão relacionadas ao filme. Além disso, em uma ironia digna do próprio filme, ele foi recebido inicialmente com relativa indiferença e passou quase em branco pelo Oscar.

Enfim, ao mesmo tempo em que o longa é um verdadeiro apogeu dos musicais e uma deliciosa mistura de nostalgia e sátira, é também só um produto da indústria cuja evolução ele tenta retratar.

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